A nova geografia econômica das cidades
(For English version, please read “Coca-Cola Cities” )

Não, este post não é uma propaganda da Coca-Cola!
Porém, aos amantes de cidades como eu, não poderia ter existido oportunidade tão criativa para se pensar em city-marketing, cidade-espetáculo, capital estrangeiro, rede de cidades, dentre outros temas recorrentes no mundo dos “pensadores urbanos”, ao se deparar com essas latinhas de Coca-Cola nas prateleiras dos supermercados. Essa propaganda, de certa forma, substancia a ideia que, atualmente, vendem-se cidades como se vende Coca-Cola (e vice-versa)!
Nas prateleiras dos supermercados, percebe-se um certo favoritismo em “comprar” certas cidades, lógica que, de fato, acompanha o padrão de alocação e concentração do capital estrangeiro em determinadas cidades – cidades globais, cidades atraentes, cidades competitivas.
A socióloga Saskia Sassen (@SaskiaSassen), na década de 90, em sua obra “A Cidade Global”, já pensara em como as chamadas cidades globais – Londres, Nova Iorque e Tóquio – impunham uma hierarquia funcional e uma centralidade na economia mundial, comandando as funções globais de comércio, investimentos e finanças. Tal tríade representava (e ainda representa!) cidades centrais de fluxos dinâmicos, formas atraentes e funções globais!
Vinte anos depois, o que se vê hoje é como o advento da globalização tem imposto uma nova geografia de centralidade econômica sobre as cidades, reconfigurando seus fluxos, funções e formas no complexo sistema hierárquico de cidades globais. Diante de uma economia globalizada, outras cidades passaram a compartilhar o espaço econômico internacional, especializando-se e oferecendo serviços sofisticados anteriormente encontrados apenas naquelas três cidades globais da década de 90.

O que se observa hoje é como algumas cidades “emergentes”, como: Rio de Janeiro, São Paulo, Jacarta, Xangai, Pequim, Moscou, Buenos Aires, Mumbai, dentre outras, ganham espaço nesta complexa rede de cidades globais, significando tanto uma ameaça, quanto uma oportunidade às cidades do “mundo desenvolvido”, como defendido por alguns pensadores. Atuando como nós centrais na rede global de investimentos, essas cidades redirecionam os fluxos de investimentos, ao adquirirem novas funções econômicas especializadas e também resignificam antigas formas para atender à lógica do capital externo. Um exemplo claro do processo de globalização dos lugares e das formas urbanas é o processo de revitalização urbana em São Paulo e Rio de Janeiro. Dessa forma, Luz (SP) e Porto Maravilha (RJ) configuram-se como formas e espaços “antigos” que têm sido lentamente moldados pelo capital privado rumo a se tornarem paisagens urbanas modernas, repletas de novos significados e funções.
Também muito repercutido nas discussões acadêmicas contemporâneas tem sido o brilhante conceito de “vetores urbanos”, novamente cunhado por Sassen. Mais propriamente voltados ao cunho geopolítico, esses vetores urbanos reforçam a ideia de como as cidades têm se configurado como os verdadeiros loci da geopolítica internacional, definindo toda a dinâmica das relações geopolíticas entre países. Vê-se, claramente, como a agenda politica de determinadas cidades tem se envolvido com questões internacionais, como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, além da capital Brasília. Outros vetores que têm predominado no cenário geopolítico e econômico global tem sido: Beijing – Hong Kong – Shanghai; Istambul – Ankara; Cairo – Beirute – Riad; Geneva – Viena – Nairóbi; Berlim – Frankfurt – Bruxelas; Washington- Nova Iorque – Chicago.

Porém, essa nova geografia econômica imposta sobre a rede de cidades também reforçou a importância e até mesmo uma mudança paradigmática do conceito de cidades “secundárias”. Uma corrente de pesquisadores aposta que cada vez menos as cidades gigantescas reinarão no cenário econômico internacional, dando lugar àquelas cidades – as cidades médias – que ocupam um patamar mais baixo que as ditas globais, abrigando populações entre 200 mil e 10 milhões de habitantes.
Segundo projeção do McKinsey (http://www.mckinsey.com/insights/urbanization/urban_world), 600 cidades liderarão 2/3 da economia mundial nos próximos anos, dentre as quais 440 estão situadas em países emergentes e 10, no Brasil, sendo essas: Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Curitiba e Porto Alegre. Contudo, segundo projeções da consultoria, as cidades médias dos países emergentes crescerão mais rapidamente no mundo, a uma taxa de 8% até 2025. Destaca-se Belo Horizonte, que conta com o quinto maior PIB do Brasil e 2,4 milhões de habitantes.
Dessa forma, o que continuaremos a presenciar num cenário próximo no território brasileiro (e em muitos países emergentes de proporções continentais) é uma crescente importância das cidades médias enquanto pontos nodais essenciais no fortalecimento das rede urbana, contribuindo para atração de fluxos de investimentos no país e para o desenvolvimento socioeconômico local e regional.
No entanto, à parte de toda a discussão conceitual sobre cidade global, média/ secundária, vetores urbanos ou sobre o que torna uma cidade competitiva e atraente para o consumo ou o capital externo é o fato que as projeções indicam que 60% das pessoas no mundo viverão em cidades até 2030. Fato que nos faz pensar em soluções estratégicas para os grandes desafios urbanos. Mais pessoas morando em cidades acarretam maior demanda por energia, água, habitação, mobilidade urbana, emprego, dentre outros. E como financiar tudo isso? Como planejar e otimizar o espaço urbano? Que ações devem ser pensadas rumo a um crescimento sustentável e inteligente de nossas cidades?
Mais que cidades vendidas, precisamos de cidades habitáveis. Mais que desempenhos econômicos e rankings de competitividade estupendos, precisamos nos livrar do fardo social que assola muitas cidades e representa um entrave ao desenvolvimento socioeconômico. Mais que cidades-espetáculos e formas mercantilizadas e revitalizadas, precisamos ser os verdadeiros jogadores do progresso. E, claro, “quanto mais CIDADE, melhor”!
Obrigada pela leitura e bem-vindos a Colacidades!
Carolina
